Claudia Guedes Colunistas — 17 julho 2011

Ele pegou a bola, saiu pelo portão e ganhou a rua. Chegou ao campo, fez várias embaixadas, cabeceou, driblou correu e gooooool! De novo, de posse da bola e em menos de um minuto outro gol. Do outro lado do campo meninos infelizes com a habilidade do jogador, planejam a tática fatal: machucar, quebrar o adversário, sem que o juiz veja… assim poderiam assegurar reputação e ganhar o respeito da galera. Esta historia ilustra o princípio do bullying justificado pela competição, pela falta de percepção da autoridade do jogo, pelo fechar dos olhos da audiência familiar à crueldade cometida pela falta de entendimento e sempre com a “desculpa” de que: “Boys will be boys!”

A expressão supra citada em inglês é geralmente usada para justificar as ações masculinas relacionadas ao assédio sexual e aos crimes de homofobia. “Coisas de homem”, se diria no Brasil, sem vergonha nenhuma de ser politicamente incorreto com respeito aos estudos de gênero. A situação que vivemos com a “abertura gay” no mundo heterossexual não assegura aos casais “não-héteros” o mesmo direito ao respeito e a privacidade.

Será que temos dados dos crimes provocados pela ignorância humana ao direito de cada um de ser feliz ao lado de quem quer que seja?

De acordo com os dados estatísicos extraídos do relatório do Grupo Gay da Bahia’ (GGB) 260 homicídios contra homossexuais foram registrados em 2010 e 65 em 2011. Nos últimos cinco anos, houve aumento de 113% no número de assassinatos de gays, travestis e lésbicas. Os gays são vítimas em 54% dos casos. Travestis são 42% e, lésbicas, 4%. No mesmo relatório aparece a comparação com os Estados Unidos, mostrando um Brasil que oferece 785% de risco à populaçao homossexual de assassinato. Outro dado interessante é saber que no Brasil não há registros oficiais para crimes de ódio o que faz com que dúvidas surjam com relação à acuidade dos dados acima mencionados. Os dados podem ser bem maiores e muito mais alarmantes. Sabemos do que acontece nas grandes capitais, mas e nas cidades pequenas?

A situação chega ao ponto de trazer ao horário nobre da Rede Globo no enredo da novela Insensato Coração personagens como Vinícius, filho bastardo de um pai rico que o reconhece já adulto. Um rapaz que joga charme de bom moço, muito educado e extremamente gentil com os adultos, porém violento, agressivo e capaz de estravazar seu ódio nas noites cariocas contra os gays que encontra saindo das boites. Do outro lado, gays como Hugo – professor universitario, Xicão – garçon da Barraca da Suely e Nelson- advogado trazem elementos para a conscientização da massa brasileira dos direitos LGBT.

Outra campanha que é admirável vem com Serginho Groisman sobre o bullying, que não tem traduçao em Português, mas que está presente nas escolas brasileiras e tem se intensificado nos últimos anos, segundo estatísticas de violência escolar. Porém, será que sabemos que o bullying está aumentando porque aprendemos a contar ou porque tomamos consciência de que violência nem sempre termina em morte, ou roubo ou agressão fisica?

As gangs que saem a noite com lâmpadas flurescentes, socos ingleses, e correntes não são formadas por filhos sem pais, estudantes sem professores. São meninos, ignorantes ao respeito humano, ao direito de escolha e à propria vida. São adolescentes cheios de hormônios em desequilíbrio que como qualquer jovem sonha em fazer a diferença desafiando o mundo que os ameaça. Todavia, não são educados a se educarem naquilo que não conhecem. Estes meninos tem medo daquilo que lhes ameaça, por isto agem com a brutalidade refletida de uma raiva contida à aqueles que não tem medo, que não se culpam por terem feito a escolha de serem felizes. A atual geração LGBT não se “desculpa” por ser quem são, porque não carregam culpa alguma. “Des-culpar” de ser feliz foi o legado da geração anterior.

A solução para a violência sempre foi a educação e esta começa no berço. Fechar os ouvidos ao filho que chama o colega de boiola é permitir o abuso verbal. Ser o técnico esportivo ou pais que dizem “deixa a dama passar” ou “jogue como homem”, é ensinar o abuso verbal de discriminação de gênero. O julgamento das situações humanas vem dos conceitos e valores culturais, religiosos que nós criamos e que passamos às futuras gerações.

É de responsabilidade social portanto, a educação, o exercício do respeito e da cidadania. Para aqueles que extinguem o que não se conhece por medo, que projetam o ódio naqueles que refletem coragem e abatem em grupo nao existe “des-culpa”.

Claudia Guedes

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